As questões éticas em torno dos testes genéticos tornam-se ainda mais delicadas quando se trata de examinar embriões e fetos.
Todas as doenças que podem ser detectadas em adultos podem ser identificadas também antes do nascimento, ainda na clínica de fertilidade ou já na barriga da mãe. Nesses casos, entretanto, a pessoa ainda não nasceu.
Diante de um diagnóstico positivo,qual deve ser a postura dos pais e médicos?
Até que ponto a análise genética deve ser usada nas decisões sobre reprodução humana?
Um embrião pode ser preterido, ou uma gestação, interrompida, por causa de um gene defeituoso?
“Acho justo que uma mãe tenha todos os meios que quiser para saber características que seu filho vai ter, desde que isso não entre em conflito com os interesses da coletividade”, diz o professor emérito da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Sociedade de Bioética de São Paulo, Marco Segre. Muitos, porém, vêem a prática como uma forma de eugenia – a busca por uma concepção de ser humano perfeito, a exemplo do que fizeram os nazistas na 2.ª Guerra Mundial.
Não se trata, porém, de escolher a cor de cabelo ou a estatura do bebê. O diagnóstico genético pré-implantação– ou PGD, em inglês –, desenvolvido a partir da década de 90, permite detectar anomalias genéticas em um embrião de apenas três dias.
Nesse estágio, ele possui oito células; uma das quais pode ser retirada e analisada geneticamente, sem prejuízo para o embrião. “O objetivo é evitar a transmissão de doenças incapacitantes e com alto risco de transmissão, nas quais há uma chance muito grande de a criança morrer ainda jovem”, defende Selmo Geber, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida e diretor da clínica Origen, uma das poucas capacitadas para oferecer o PGD no Brasil.
Assim como nos adultos, os testes são realizados para detectar uma mutação específica.
Não há, pelo menos por enquanto, uma tecnologia que permita rastrear o genoma de uma pessoa para todo tipo de anomalia. Os testes, segundo Geber, não são usados como rotina.
São oferecidos, normalmente, apenas quando há um histórico de doença na família.
Dos cerca de 30 casos atendidos pelo Origen anualmente, mais de 80% são de casais que procuram a reprodução assistida não por um problema de infertilidade, mas com o objetivo específico de não transmitir uma doença para os filhos.
Todos os embriões são testados in vitro, e apenas os que não contêm a mutação são transferidos para o útero. “É óbvio que ninguém quer ter um filho com uma doença genética grave. Se o casal pode fazer algo para evitar isso, acho que é uma opção dele”, avalia Francisco Salzano, da UFRGS. “Se achar que não deve fazer teste nenhum, a opção é dele também.”
Para Segre, o uso de testes genéticos no planejamento familiar, com o intuito de erradicar doenças, não pode ser comparado ao que foi feito pelos nazistas. “A eugenia não é um mal em si. Ela se torna um mal a partir do momento em que é gerida por uma força superior, como o Estado.” No caso de gestações já em andamento, é possível fazer testes genéticos pré-natais, a partir de células retiradas da placenta.
Dependendo do resultado, o casal pode se preparar psicologicamente para uma futura doença, ou até optar por interromper a gestação fora do País. No Brasil, o aborto só é permitido em casos de estupro, risco de vida para a mãe e –atualmente, por meio de liminar – bebês sem cérebro (anencefalia).
Fonte: www.biotecnologia.com.br
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