A medicina fetal, teve início no Brasil no final da década de 80, na Escola Paulista de Medicina e, desde então, vem ajudando a diagnosticar através de ultra-sons e procedimentos invasivos, uma série de doenças que podem ser tratadas, enquanto o feto ainda está no útero materno. Mas, haveria uma forma para prevenir tais problemas antes que a mulher engravidasse? O primeiro passo seria consultar um ginecologista e avisar sobre o desejo de engravidar.
O médico checaria a saúde da paciente através de exames e indicaria a administração de um medicamento chamado ácido fólico. "Mulheres que querem engravidar ou corram riscos de engravidar, devem tomar o ácido; é uma vitamina que basicamente dá uma chance de 70% de evitar defeitos no sistema nervoso central de um certo tipo, como anencefalia (formação deficiente do cérebro) e espinha bífida (espinha aberta)", informa o Prof. adjunto e dr. Renato Martins Santana, obstetra do Setor de Medicina Fetal da Universidade Federal de São Paulo, UNIFESP.
A maioria das gestações, não acontecem de forma planejada, em razão disso, em alguns países do exterior os ginecologistas receitam ácido fólico para todas as suas pacientes que podem engravidar, ou seja, mulheres sexualmente ativas que não estejam na menopausa, não tomem pílula, nem usem Dispositivo Intra Uterino (DIU), não usem tabelinha e nem preservativo. Segundo o dr. Santana, no Brasil, a prática precisa ser divulgada, mesmo entre os médicos.
Quando a mulher já está grávida, várias providências deverão ser tomadas ao longo das 42 semanas de gestação. Vários exames serão realizados e alguns, especificamente, para detectar a presença de anomalias no feto.
No final do terceiro mês de gravidez, a gestante deve realizar um ultra-som que diagnostica anomalias congênitas
– nesta fase, um edema presente na nuca de todos os fetos, se estiver alterado, pode sugerir problemas. 5% dos fetos têm o edema aumentado e desses 5%, a maioria é normal, mas ainda dentro dessa porcentagem, estão 82% dos bebês com Síndrome de Down, bebês com outros erros do número de cromossomos e bebês que, embora não tenham erros cromossômicos, possuem defeitos cardíacos graves, alterações renais e esqueléticas.
Para eliminar algumas possibilidades de o feto ser portador de Síndrome de Down e outros erros do número de cromossomos , é feita uma coleta de vilosidades coriônicas para contar o número de cromossomos.
A segunda opção é esperar a chegada do 4º mês para se fazer a amniocentese, remoção de líquido amniótico, também com o objetivo de contagem de cromossomos.
Se algum erro for detectado, o casal será informado sobre o que será possível fazer e quais procedimentos serão utilizados. “Feito o diagnóstico de um defeito, estabelecendo-se com precisão o que é, estudando-se o feto como um todo, examinando-o bem com o ultra-som, em alguns casos, podemos ajudá-lo com remédios que mãe toma por boca ou tratamentos invasivos. Outras vezes, a gente não pode oferecer tratamento antes do nascimento, então, vamos analisar se o defeito é ou não, compatível com a vida”, explica dr. Santana.
Quando os defeitos encontrados não colocam em risco a vida do bebê, o tratamento pode ser feito após o nascimento, mas nos casos mais graves, são indicados procedimentos cirúrgicos, ainda na gestação. Na cirurgia a céu aberto, defeitos como espinha bífida podem ser corrigidos, nas cirurgias endocópicas, se o feto estiver com entupimento na urétra, é possível desobstruí-la e, em alguns casos, uma coleta de líquidos pode ser feita, como por exemplo, ao redor do pulmão do feto, deixando um catéter que vai fazer com que o líquido saia do tórax, permitindo que o pulmão da criança se desenvolva e ela não morra de hipoplasia pulmonar ( desenvolvimento insuficiente do pulmão).
Os procedimentos realizados envolvem alguns riscos. A gestante pode entrar em trabalho de parto prematuro, se a bolsa das águas for rompida durante o processo. Não há como se precisar a porcentagem de riscos, na realização de cada procedimento, segundo o dr. Santana, tudo é muito bem explicado para o casal; se existe algo a fazer e quais os riscos e as chances da criança sobreviver se nada for feito.
A notícia de que existem anormalidades com o bebê, faz com que o casal parta em busca de informações sobre o que está acontecendo com seu bebê e, nesta hora entra em cena, um serviço que também faz parte da medicina fetal, chamado aconselhamento genético. O casal é recebido por uma enfermeira que vai explicar todos os riscos que o bebê pode estar correndo, enfim, todos os fatores de risco que interfiram no desenvolvimento fetal. “Explicamos os procedimentos que serão realizados. A cada exame diagnóstico, o casal retorna ao setor para que seja explicado o resultado do exame. Eles precisam saber de tudo que está acontecendo e todos os riscos inerentes a tudo que será realizado”, detalha a Prof. adjunta e dra Anelise Riedel Abrahão, do Departamento de Enfermaria da UNIFESP.
A medicina fetal, unida ao aconselhamento genético, ajuda a identificar casos de risco e programar se o parto pode ser de 9 meses e normal ou será antecipado ou cesáreo. "Temos que saber em que hospital essa criança tem que nascer, quais são os especialistas que ela necessita, para que seja internada num hospital que tenha o máximo possível de recursos necessários. Se ela não tiver muita chance de evoluir bem que, pelo menos, tenha toda chance que humanamente ela merece", acrescenta o dr. Santana.
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